Carlos No Site pessoal

Europa

A ARTE COMO EMPENHAMENTO SOCIAL

Carlos No é um artista invulgar. Seja nas exposições Problemas de Aritmética (1998) e Classificados (2007), seja na instalação Desfiladeiro (2008), seja ainda na actual exposição, a obra de Carlos No não se enclausura num formalismo experimentalista divorciado dos veios nervosos da realidade social envolvente. Carlos No não idolatra a forma estética em si própria ou um abstraccionismo flutuante e livre de quaisquer regras. Não são de formas livres imaginárias que Carlos No faz a matéria do seu trabalho. Neste sentido, afirmando um realismo figurativo nos seus trabalhos, aceitando a incorporação da figura humana pintada ou maquetizada em miniaturas nas suas instalações, Carlos No ruma, primeiro, contra a vaga estética actual, e, segundo, contra a maré que funda a vaga. A vaga é constituída pelas modas culturais, que têm tornado a arte fonte e sujeito do sentimento e do arbítrio individual do artista, segundo o qual tudo é arte, não porque conceptualmente assim seja interpretado, mas porque o artista o diz que é. A maré que funda a vaga reside no espírito do nosso tempo, que privilegia mais o ineditismo, o exotismo, o insólito e o individualismo estéticos que a integração da obra numa tradição ou escola estética, forçando a arte a progressivamente divorciar-se da sua antiga função social de reflexo estético da realidade. O trabalho de Carlos No consegue, com originalidade, assentar na dupla vertente de ser arte do seu tempo (inédita, insólita, individualista), sem deixar de possuir um profundo empenhamento social.

De facto, a arte de Carlos No casa com o elemento social, é dele reflexo lúcido e voluntário e nele, em retorno, se compromete. Em Problemas de Aritmética, Carlos No desconstrói a hipocrisia social dominante, a lógica maquiavélica do poder, que é também, e sobretudo, a lógica do espectáculo mediático, explorando as misérias do mundo. A sua pintura faz ver – como um choque psicológico – o vazio existente entre a realidade social e o discurso convencional, não raro de carácter científico, não raro de carácter político, estatuindo-se como neutro, mas sempre politicamente interessado e parcial. Assente visualmente na desmontagem deste discurso pretensamente neutro, a arte de Carlos No visa, não reinventar novas realidades narcísicas, explorando-as e ensaiando-as, mas tornar patente ou evidente o que, a partir de imagens simples, de facto a realidade é. Os quadros e instalações de Carlos No são profundamente cinematográficos, mais descrevem do que narram e mais exprimem ou revelam visualmente do que sugerem. De facto, o efeito semântico do encadeamento das operações aritméticas ou das palavras mal escritas manifesta de imediato o acontecimento, mostra-o, o espectador “vê-o” à sua frente. Tal significa a opção por um léxico muito concreto de imagens, encadeado numa composição dramática, figurada para “dar a ver”.

Assim, cada quadro e cada instalação evidenciam-se como parte integrante de um manifesto estético de denúncia. Em Classificados, constata-se que o trabalho infantil, mais do que uma questão política, prima por ser uma questão de privilégio de cultura da ignorância. Primeiro, a evidência de um realismo directo, imediato; depois, o choque da ostentação da ganância e da ignorância presentes nas legendas, como se o mal social nascesse do cruzamento destes dois traços psicossociais.

Nesta nova exposição de Carlos No, ironiza-se sobre a questão da imigração para a Europa, denunciando-a. Não podia vir mais a propósito, ostentando o fortíssimo empenhamento social da arte de Carlos No. De facto, no passado dia 18 de Junho de 2008, o Parlamento Europeu aprovou, por larga maioria, a “Directiva do Retorno”, relativa à deportação de imigrantes ilegais. Esta “Directiva” ofende o espírito de tolerância e contradiz o universalismo do melhor da cultura portuguesa, bem como a própria ideia do “encontro de culturas” que a União Europeia retoricamente celebra. É justamente esta realidade que a arte de Carlos No nos faz ver – o domínio dos interesses sobre as pessoas, dos poderosos sobre os fracos, da hipocrisia sobre a inocência, das necessidades do Estado sobre as necessidades dos povos, de um pensamento frio e calculista sobre os sentimentos humanos de dádiva, generosidade e partilha comunitária. A Europa-Fortaleza será, no futuro, tão mais frágil quanto mais fortaleza for evidenciando, pela demografia, pela ausência de recursos naturais, pela fuga de cientistas e artistas para outros continentes (sobretudo a América). Com efeito, este continente encontra-se hoje tão decadente quanto Portugal o fora desde o século XVII, a Europa, desde a Guerra do Golfo (1991), saiu para “fora da História”, em nada internacionalmente contando senão para dar apoio à potência unipolar Americana, esta sim, fautora triunfante da História. A morte do Portugal imperial coincide com a morte da Europa, caminhando ambos para o “grande sono” dos povos desprezados pela História, como o chinês e o grego, adormecidos ao longo de dois mil anos depois de terem atingido um clímax civilizacional inaudito.

Pensemos nesta ideia após sairmos da belíssima exposição de Carlos No.

Miguel Real

Azenhas do Mar, Dezembro de 2009

A «EUROPA» SEGUNDO CARLOS NO

Jogo de escalas, manipulação, desvio. O realismo crítico de Carlos No materializa-se na frieza das linguagens gráficas do design industrial e da sinalética urbana, apropriando-se dos seus suportes e da sua sintaxe lógica e impessoal, para nos contar o sentido inverso dos dramas humanos e sociais vividos e ali recriados pelo artista: transgressão, clandestinidade, exploração.

Transgressão e infracção não são, como é desejável lembrar, valores absolutos e objectivos, antes dependem da definição que cada contexto histórico e cultural lhes dá. E assim, nas cenografias de Carlos No, ambas se inscrevem nos sinais criados especificamente para a sua prevenção racional, nos sistemas de controlo, regulação e normalização da circulação humana nas grandes urbes do nosso tempo: caixas de detecção de incêndios, sensores de movimentos, controladores industrialmente produzidos em prol da total eficácia, da total segurança do mundo em que vivemos, mormente espelhando – contra a suficiência das nossas crenças num hipotético bem-estar – o medo pavor que radica no mais íntimo de cada um.

Entramos assim num mundo contrastado, redimensionado a escalas de amplitudes diversas, familiar pela configuração dos materiais e signos e simultaneamente surpreendente pela recriação desviante, irónica e autoral, da sintaxe objectiva e fria da sinalética urbana.

Desta situação tira Carlos No a força da sua proposta plástica. Deslocando intencionalmente os dispositivos racionais de informação e controlo do espaço social e do movimento de pessoas e veículos, mantendo não obstante a força elocutória das formas apresentadas, por exemplo, na conformação material e visual dos sinais de trânsito, com os seus suportes metálicos e o seu repertório de cores básicas regulado no Código das Estradas: vermelho (atenção, alerta, proibição), azul (obrigação, prescrição), branco (neutralidade), negro (contraste), verde (circulação livre). Essa aparência de familiaridade fica bem patente na série de trabalhos de «Sentido Obrigatório» (2008) em que os sinais de obrigação (azuis e brancos) se exibem como tabuleiros de uma realidade bem diferente, a do condicionamento à liberdade humana de circular, imposto por políticas, protocolos e medidas que, na sua complacente democraticidade, mais do que organizar e acolher, separam e excluem.

Neste como noutro conjunto de trabalhos, somos projectados no universo miniatural de verniz doce e colorido das histórias e dos brinquedos da nossa infância como em «Brundibar» (2010), «A Praga» ou «Imigrantes» (2009). Nestas duas séries em particular, reencontramos a estratégia de apropriação e desvio dos materiais e dispositivos concebidos pelo design industrial para segurança dos edifícios, agora adaptados a uma narrativa “outra” com o mesmo efeito de gulliverização do olhar: a redução das escalas dos objectos e sua transfiguração, por essa redução, a maquetas de brincar que nos transportam, pelo encanto da sua pequenez, para um mundo de aparente idílio e conciliação. Esse efeito é tanto mais raro quanto hoje as imagens tendem a circular no espaço urbano em escalas sobredimensionadas impostas pela funcionalidade e condição da percepção humana das formas e mensagens no espaço físico.

Assim, nos teatrinhos desta «Europa» de Carlos No, a situação do nosso corpo e olhar inverte-se. Ao invés da imagem de grande ecrã que nos reduz vemo-nos agora como gigantes sobranceiros e alheios, certos das nossas convicções, contemplando o jogo das expectativas contraditórias de todo o ser humano: o sonho de uma vida melhor acarretando o risco eminente da detecção por controlo remoto e da deportação.

Em «Champigny» (2010), regressamos à escala “natural”: um relevo de parede constituído por improvisadas e precárias caixas de madeira, caixas de correio cujos nomes identificam pessoas e origens culturais diversas que o bairro de lata amalgamou e compactou. Hoje, vêm do Magrebe, da África subsaariana, da Ásia, como há quarenta anos, vieram da península ibérica portugueses (mas também espanhóis, argelinos, grego, italianos…) em busca de um el dorado cruamente descoberto nos materiais de refugo, nos restos com que milhares de homens e mulheres improvisaram as suas casas, abandonados à sorte de serem presas fáceis no esquema de subcontratações, trabalho precário e salários de miséria.

Champigny-sur-Marne esse imenso baldio dos arredores de Paris já não existe. Mas existem outros semelhantes bem à nossa porta e mais além, a lembrar a precariedade, a miséria humana regurgitada por uma Europa repetidamente discursada como sociedade da abundância. Essa consciência de contraste constitui a inteligência criativa de Carlos No numa mensagem de intensa ironia, a contracorrente do tempo presente atravessado pelos mitos do pluralismo e da integração sociais, em que os dramas humanos edulcorados e coloridos quanto baste circulam nos ecrãs de cristais líquidos como histórias da Carochinha, certo que nos tornemos, quais criancinhas, mais auto-imunes ou indiferentes a elas.

Entre o pequeno e doce mundo de brincar e a narrativa reprimida que retorna azeda, em fundo, contra o colorido e a atractividade das suas miniaturas, Carlos No apresenta-nos o fio tormentoso e inesgotado da exploração humana, dos campos de trabalhos forçados, caminhos ínvios da indignidade e da morte.

Ana Filipa Candeias

Parede, Março de 2010